Nossos filhos: futuros corruptos do Brasil. Será?

Tempo de leitura: 9 minutos

Tenho um interesse muito grande por reflexões que envolvem educação de filhos e já escrevi outros artigos sobre o tema. Caso você ainda não tenha lido, sugiro Não minha para seu filho.

Imagine que alguém lhe procura e faz uma proposta para você obter uma vantagem, envolvendo atos ilícitos, seja em dinheiro, em poder, ou qualquer outro tipo de vantagem pessoal fora do padrão. Você responde sim ou não?

Futuros corruptos

Vamos tentar entender o que passa na sua cabeça nesse momento: dentro da sua mente existem várias caixinhas – a caixinha de princípios, a de educação, a de experiências, a de conhecimento, a de emoções, a de lógica, e por aí vai.

Quando você ouviu a proposta para obter vantagem, sua consciência vai fazer uma pesquisa dentro da caixinha de princípios éticos que você tem dentro da sua cabeça.

Se a sua consciência encontrar, dentro da caixinha de princípios, informações de que aquela proposta não é correta e que você deve dizer não imediatamente, você vai dizer não. Agora, se a sua consciência encontrar a informação de que aceitar a proposta será bom para você, e o fato de ser ilícita não tem problema algum, pois o que interessa é somente o seu ganho, você vai dizer sim.

Se você disse sim, você será considerado, pela maior parte da sociedade, um mau caráter, e se a sua participação nesse esquema for descoberta, poderá ser julgado, condenado e preso, teoricamente. Concorda?

Até aqui tudo bem. É uma lógica.

Antes de continuar nossa reflexão, vamos entender o que é caráter:

Caráter: Conjunto de traços morais, psicológicos, etc., que distinguem um indivíduo, grupo ou povo; índole; temperamento; qualidade; firmeza de atitudes.

Mau caráter: quem demonstra maldade ou qualidades negativas de caráter; pessoa sem escrúpulo; que engana as pessoas sem o menor constrangimento; desvio de caráter (para o mal); diz-se daquele ou daquela que age sem decência, sem pudor, sem sensibilidade humana.

Fonte: http://www.psiconlinews.com/2015/10/formacao-do-carater.html

Continuando nosso assunto principal, vamos entender agora quem coloca as informações dentro das nossas caixinhas. Para isso, vamos usar de alguns estudos na área de Psicologia.

Algumas pesquisas mostram que, durante o primeiro ano de vida, o ser humano aprende 50% de tudo que virá a aprender na vida e, no segundo ano, aprende mais 25%. Ou seja, nos dois primeiros anos de vida, o ser humano aprende 75% de tudo que um dia virá a aprender. Obviamente, parte desse aprendizado envolve aspectos motores e físicos como sentar, andar, mastigar, falar, etc., mas também aspectos de ordem emocional, intelectual e espiritual. Assim, ao terceiro ano de vida, grande parte do caráter já está formado e aos sete anos está concluído.*
Fonte: http://www.vidacampestre.com.br/2012/09/a-formacao-do-carater-na-primeira.html
*Dados publicados em: Rockey, Ron e Nancy, Chosen (Nampa, Idaho: Pacific Press Publishing Association, 2001, p. 117).

“As lições que a criança aprende durante os primeiros sete anos de vida têm mais que ver com a formação do seu caráter que tudo que ela aprenda em anos posteriores”. (WHITE, 2013, p. 193.)
Fonte: http://centrowhite.org.br/files/ebooks/egw/Orienta%C3%A7%C3%A3o%20da%20Crian%C3%A7a.pdf

São vários os fatores que podem influenciar na formação do caráter. Entre eles, um dos mais fortes é o exemplo dos adultos, especialmente de pais e professores (é um dos mais importantes fatores na formação do caráter de uma criança). As crianças farão o que os adultos fazem, e não o que eles dizem que deve ser feito. A confusão ocorre quando os adultos dizem uma coisa e fazem outra, quando o lar tem normas diferentes das normas da escola, ou da sociedade ou de seus amigos.
Fonte: http://escoladepaisjf.blogspot.com.br/2007/08/o-carter-se-forma.html

Feito o devido embasamento, vamos considerar que o conteúdo da sua caixinha de princípios foi definido, basicamente, na sua infância, muito provavelmente por influência dos seus pais.

Seguindo esta lógica, se os exemplos e ensinamentos que seus pais lhe deram induzem para que você não aceite propostas indecentes, sua resposta será: não, eu não quero participar, caso contrário, será sim, eu aceito levar vantagem, mesmo que tenha que praticar um ato ilícito.

Você está se perguntando nesse momento: então a culpa por eu ser corrupto e querer levar vantagem em tudo é dos meus pais? A resposta é: Sim, provavelmente a culpa é dos seus pais.
Porém, não fique achando que seus problemas estão resolvidos e que você está livre para continuar participando de atos ilícitos e pronto. Existe outra coisa chamada “responsabilidade”.

A diferença entre a culpa e a responsabilidade é que a culpa paralisa enquanto a responsabilidade mobiliza. O culpado fica estagnado no erro, a remoê-lo, a martirizar-se, sem conseguir sair dali. O responsável olha para o erro, tenta compreendê-lo, e percebe ainda que se foi responsável por ele, também é responsável pelo reparo, ou pela mudança.
Fonte: http://oficinadepsicologia.blogs.sapo.pt/134816.html

Então, de quem é a responsabilidade?

Se você já tem mais de 18 anos, como eu, não adianta esperar que seus pais assumam a culpa por não colocarem coisas boas em sua caixinha de princípios éticos, e tenham a responsabilidade de tentar mudar isso em você, mesmo porque, provavelmente, eles fizeram isso sem entender o que estavam fazendo. Sem saber que isso iria influenciar diretamente no caráter dos seus filhos.

Mas como isso é possível?

Independente de você ser filho ou pai/mãe, já deve ter dito ou ouvido coisas como estas:

  • “Filho, se você não for tomar banho agora, não vai brincar depois”;
  • “Se não escovar os dentes, não vai passear”;
  • “Se você não levantar agora para ir para a escola, vai ficar sozinho em casa”;
  • “Se você não obedecer a mamãe, vai ficar de castigo”.

Leia também: http://edercachoeira.com.br/nao-minta-para-seu-filho/

Isso é coerção! Isso é corrupção!

Coerção:
co·er·ção
(latim coertio, -onis ou coercitio, -onis)
substantivo feminino

  1. .Ato de coagir ou de forçar pela intimidação, pela força ou pela violência. = .COAÇÃO
  2. Direito de reprimir ou de coagir.

“coerção”, https://www.priberam.pt/dlpo/coer%C3%A7%C3%A3o

Corrupção:
cor·rup·ção
(latim corruptio, -onis, deterioração, sedução, depravação)
substantivo feminino

  1. .Ato ou efeito de corromper ou de se corromper.
  2. […]
  3. Alteração do estado ou das características originais de algo. = ADULTERAÇÃO
  4. Comportamento desonesto, fraudulento ou ilegal que implica a troca de dinheiro, valores ou serviços em proveito próprio (ex.: os suspeitos foram detidos sob alegação de corrupção e desvio de fundos).
  5. [Figurado]  Degradação moral (ex.: corrupção de valores). = DEPRAVAÇÃO, PERVERSÃO
  6. Sedução (ex.: o réu foi condenado pela corrupção de pessoa menor de 14 anos).

https://www.priberam.pt/dlpo/corrup%C3%A7%C3%A3o

– Ah, Eder, você está exagerando! Não é bem assim!
Não, não estou exagerando!

Se você oferece alguma coisa em troca, para seu filho fazer algo que você quer que ele faça, você está ensinando seu filho a ser corrupto, a usar de coerção para conseguir o que ele quer, hoje e no futuro. Você está colocando essa informação na caixinha de princípios éticos dele.

Porque temos tantos políticos corruptos?

Foi assim que aconteceu com os políticos que estão sob investigação. Foi assim que aconteceu com você, comigo, que já praticamos nossas pequenas corrupções, mas que não contamos a ninguém, com a ilusão de que, se ninguém souber, não é um erro, não seremos condenados um dia.

Não pense que seus pais devem ser punidos por serem os culpados por você dizer sim à proposta ilícita que você recebeu acima. Não, eles não devem pagar por isso. Eles devem ser punidos caso pratiquem esses atos. É assim que funciona.

A mesma coisa vai acontecer com você e seus filhos. A responsabilidade que você tem, hoje, é de praticar bons exemplos para que seus filhos se espelhem nos seus atos. As coisas que você fala e pratica na frente dele e para ele, são as informações que ele vai guardar na caixinha de princípios éticos, e nas outras caixinhas. São estas informações que servirão de base para as decisões que ele vai tomar no futuro.

– Então, Eder, o que você está afirmando é que todos nós estamos programados desde crianças e não podemos mudar quando crescemos?

Mais ou menos isso. Eu afirmo que, baseado nos estudos da psicologia, a raiz do nosso caráter é definida na infância e todas as nossas decisões, a partir daí, são amparadas, de alguma forma, nessa base que adquirimos quando crianças. Isso não quer dizer que não teremos a oportunidade de mudar.

O detalhe é que a decisão de mudar algo em nosso caráter, que é considerado errado pela sociedade, depois da fase de formação, também será tomada com base nas informações que você tem lá naquela caixinha de princípios éticos, que venho comentando desde o início deste artigo. Ou seja, se a informação-base prevalecer sobre a pressão da sociedade, vivenciada naquele momento, você não vai mudar. Será uma briga do anjo bom contra o anjo mau. O mais forte vencerá e o resultado dessa batalha pode ser uma mudança de caráter. Essa mudança pode ser do bem ou para o mal, ou vice-versa.

A questão final é: se você não colocar informações nas caixinhas dos seus filhos, outras pessoas irão colocar. A diferença é que você não controla o que as outras pessoas fazem.

Você deve estar pensando que uma simples chantagem exigindo que seu filho tome banho para depois poder jogar vídeo game não vai transformá-lo em uma pessoa corrupta, no futuro. Certo? Será?

Para garantir, faça o máximo que puder para colocar informações boas na caixinha de princípios éticos dos seus filhos. Faça isso agora!

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